O Amanhecer dos Recomeços

 

Uma crônica sobre o despertar e o poder das escolhas

A cidade ainda dorme, embalada pelo silêncio que antecede o burburinho dos carros e das vozes. O céu, tímido, se pinta de tons alaranjados e rosados, como se ensaiasse uma dança reservada apenas aos que ousam acordar cedo. O amanhecer é um convite silencioso ao recomeço, uma promessa renovada a cada dia que se inicia.

Para alguns, é apenas mais uma manhã — o rito da rotina, o despertador insistente, o café apressado. Para outros, porém, o amanhecer carrega possibilidades: um novo emprego, a coragem de um "sim", a libertação de um "não". É no limiar entre a noite e o dia que cada um encontra, à sua maneira, a chance de escolher de novo, de errar diferente, de tentar com outro olhar.

A vida não espera grandes revoluções. Muitas vezes, ela se reinventa nos pequenos gestos: acordar cinco minutos mais cedo para ouvir o próprio pensamento, mudar o caminho para o trabalho só para ver flores diferentes no caminho, ligar para alguém depois de meses de silêncio. Recomeços, afinal, não dependem do calendário, mas de uma disposição interna de se permitir o novo.

O amanhecer, seja ele ensolarado ou coberto de nuvens, é democrático. Ele chega para todos — para os que dormiram bem e para os que mal pregaram os olhos, para os esperançosos e para os desconfiados, para quem sonha alto e para quem apenas sobrevive. Cada um, a seu modo, faz do primeiro raio de sol um ponto de partida. E o que se faz com esse ponto é escolha de cada um.

Talvez, em meio à pressa do dia, esqueçamos desse presente diário que é o recomeço. Mas basta um pouco de atenção ao cheiro do pão torrando, ao canto tímido dos pássaros ou ao frescor do orvalho para lembrar que, sim, sempre há um novo início à espera de quem se permite escolher de novo.

No final das contas, o amanhecer é menos sobre o sol que nasce lá fora e mais sobre a luz que a gente decide acender por dentro.

Alcenir Borges Sousa Junior


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